DATA: 10/08/2020
REVISÃO DE CONTEÚDO: Conto
Coloque a data, o nome do texto, copie e responda as
perguntas
O ASSALTO
Carlos Drummond de
Andrade
Na feira, a gorda senhora protestou a altos brados contra o
preço do chuchu:
— Isto é um assalto!
Houve um rebuliço. Os que estavam perto fugiram. Alguém,
correndo, foi chamar o guarda. Um minuto depois, a rua inteira, atravancada,
mas provida de um admirável serviço de comunicação espontânea, sabia que se
estava perpetrando um assalto ao banco. Mas que banco? Havia banco naquela rua?
Evidente que sim, pois do contrário como poderia ser assaltado?
— Um assalto! Um assalto!
— A senhora continuava a exclamar, e quem não tinha escutado,
escutou, multiplicando a notícia. Aquela voz subindo do mar de barracas e
legumes era como a própria sirena policial, documentando, por seu uivo, a
ocorrência grave, que fatalmente se estaria consumando ali, na claridade do dia,
sem que ninguém pudesse evitá-la.
Moleques de carrinho corriam em todas as direções,
atropelando-se uns aos outros. Queriam salvar as mercadorias que transportavam.
Não era o instinto de propriedade que os impelia. Sentiam-se responsáveis pelo
transporte. E no atropelo da fuga, pacotes rasgavam-se, melancias rolavam,
tomates esborrachavam-se no asfalto.
Se a fruta cai no chão, já não é de ninguém; é de qualquer
um, inclusive do transportador. Em ocasiões de assalto, quem é que vai reclamar
uma penca de bananas meio amassadas?
— Olha o assalto! Tem um assalto ali adiante!
O ônibus na rua transversal parou para assuntar. Passageiros
ergueram-se, puseram o nariz para fora. Não se via nada. O motorista desceu,
desceu o trocador, um passageiro advertiu:
— No que você vai a fim do assalto, eles assaltam sua caixa.
Ele nem escutou. Então os passageiros também acharam de bom
alvitre abandonar o veículo, na ânsia de saber, que vem movendo o homem, desde
a idade da pedra até a idade do módulo lunar. Outros ônibus pararam, a rua
entupiu.
— Melhor. Todas as ruas estão bloqueadas. Assim eles não
podem dar no pé.
— É uma mulher que
chefia o bando!
— Já sei. A tal
dondoca loira.
— A loura assalta em
São Paulo. Aqui é morena.
— Uma gorda. Está de
metralhadora. Eu vi.
— Minha Nossa Senhora,
o mundo está virado!
— Vai ver que está
caçando é marido.
— Não brinca numa hora
dessas. Olha aí sangue escorrendo!
— Sangue nada, é
tomate.
Na confusão, circularam notícias diversas.
O assalto fora a uma joalheria, as vitrinas tinham sido
esmigalhadas a bala. E havia joias pelo chão, braceletes, relógios. O que os
bandidos não levaram, na pressa, era agora objeto de saque popular. Morreram no
mínimo duas pessoas, e três estavam gravemente feridas.
Barracas derrubadas assinalavam o ímpeto da convulsão
coletiva. Era preciso abrir caminho a todo custo. No rumo do assalto, para ver,
e no rumo contrário, para escapar.
Os grupos divergentes chocavam-se, e às vezes trocavam de
direção; quem fugia dava marcha à ré, quem queria espiar era arrastado pela
massa oposta. Os edifícios de apartamentos tinham fechado suas portas, logo que
o primeiro foi invadido por pessoas que pretendiam, ao mesmo tempo, salvar o
pelo e contemplar lá de cima. Janelas e balcões apinhados de moradores, que
gritavam:
— Pega! Pega! Correu pra lá!
— Olha ela ali!
— É um mascarado! Não, são dois mascarados!
Ouviu-se nitidamente o pipocar de uma metralhadora, a pequena
distância. Foi um deitar no chão geral, e como não havia espaço uns caíam por
cima de outros.
Cessou o ruído, Voltou. Que assalto era esse, dilatado no
tempo, repetido, confuso?
— Olha, um menino tocando matraca! E a gente com
dor-de-barriga, pensando que era metralhadora!
Caíram em cima do garoto, que sorveteu na multidão. A senhora
gorda apareceu, muito vermelha, protestando sempre:
— É um assalto! Chuchu por aquele preço é um verdadeiro
assalto!
Disponível em:
https://leituramelhorviagem.files.wordpress.com/2013/05/texto-para-leitura_o-assalto-carlos-drummond-de-andrade.pdf Acesso em: 07 de jul. 2020.
Após a leitura do texto, resolva os itens a seguir.
1)Qual o assunto do texto “O assalto” de Carlos Drummond de
Andrade?
2)Na fala da gorda senhora “Isto é um assalto! ” Qual o
sentido dado à palavra “assalto”, no texto?
3)“Aquela voz subindo do mar de barracas e legumes era como a
própria sirena policial, documentando, por seu uivo, a ocorrência grave, que
fatalmente se estaria consumando ali, na claridade do dia, sem que ninguém
pudesse evitá-la. ” De acordo como o trecho, responda:
a) De quem era a voz que subia pelo mar de barracas?
b) A que foi comparada essa voz que subia do mar de barracas?
c) Explique a expressão “mar de barracas” destacada no
trecho.
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