DATA 08/09/2020
Leia o CONTO e responda às questões.
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O cachorro canibal
José J. Veiga
Percebia-se que era um cachorro por causa do rabo metido rente entre as
pernas, quase colado na barriga, e também um pouco por causa dos olhos, de uma
tristeza tão funda que só podiam ser olhos de cachorro escorraçado. As patas
não se firmavam no chão como as de qualquer cachorro razoavelmente seguro de
si; pisavam a medo, apalpando experimentando. (Depois se soube que ele tinha
perdido os cascos pelos caminhos, ficando as plantas em carne viva.) De onde
estaria vindo, ninguém se interessou em saber; ele apenas parou ali, lamentável
e infeliz, muito cansado para continuar andando. Apareceu de manhã, e quem o
viu deitado numa nesga de grama debaixo do jasmineiro pensou em um cão errante,
igual a tantos que cruzam o mundo em todas as direções, parando e farejando,
mas sempre em marcha, como se incumbidos de alguma missão urgente, cujo
endereço e propósito só eles sabem; nem valia a pena providenciar comida,
provavelmente ele não estaria mais lá quando a comida chegasse.
Mas aquele parecia não ter pressa ou intenção de seguir, e lá ficou
deitado de lado, não propriamente descansando porque as moscas não deixavam,
mas fazendo o possível por conseguir algum sossego.
Via-se que estava faminto, mas o cansaço impressionava mais, talvez
devido a seu litígio incessante contra as moscas. Às vezes ele parecia pensar
que pudesse acomodar a cabeça entre as patas e deixar ao resto do corpo o
trabalho de repelir os inimigos. O rabo não parava de açoitar o ar, e todo o
pelo tremia repuxado pelas contrações dos músculos; mas essa estratégia era
logo descoberta e as moscas concentravam o ataque na cabeça e nas orelhas. Eram
tantas e tão insistentes que ele não podia ignorá-las por muito tempo: bocava o
ar indignado e às vezes até se levantava de um pulo para poder persegui-las
melhor - mas a dor causada pelos talos de grama nas plantas desprotegidas
advertia-o de que ele não estava em condições de ser muito enérgico.
Uma criança da casa viu-o ainda no mesmo lugar lá pelo meio da
tarde e levou-lhe uns restos de comida. Ele estudou o menino com olhos
desconfiados e concluiu que não havia perigo daquele lado. Comeu, lambeu o
prato, balançou o rabo para mostrar que apreciara a gentileza. Deve ter passado
a noite no mesmo lugar, mas ninguém ouviu latidos nem uivos. De manhãzinha
chamaram-no para dentro e o menino deu-lhe um banho na torneira do pátio. Ele
não resistiu nem criou dificuldades, era o primeiro a reconhecer a necessidade
de limpeza, sabia que um cachorro limpo leva vantagem por onde anda.
Com o banho ele começou a levantar o rabo, primeiro por ter recuperado
um pouco da dignidade, segundo por suspeitar que dentro de pouco haveria mais
comida. Quando um cachorro errante é levado para dentro de uma casa e recebe o
luxo de um banho, a sequência lógica é um prato de comida.
Mas aí começa também a fase difícil das
relações entre cão e gente. Como esperava, ele recebeu o seu almoço; e não
tendo sido enxotado, interpretou a situação como significando que seria
tolerado. Mas pode um cão contentar-se com a simples tolerância? Quando se
sente apenas tolerado, um cão de respeito tem dois caminhos a seguir: ou exige
atenção, ou vai embora para outro lugar onde possa se impor. A retirada é
sempre humilhante, ele sabe que no momento em que vira as costas começou o
esquecimento - isso se não acontece o pior- nem percebem que ele se foi; muito
tempo depois é que alguém indaga distraidamente, "é verdade, que fim levou
aquele cachorro que andava por aí?" Farejando o ambiente ele percebeu que
podia escolher o primeiro caminho com grande probabilidade de êxito.
Para começar, era preciso não exagerar na gratidão. Se um cachorro
mostra muita gratidão às pessoas podem pensar que ele não está habituado com
bom trato e acabam relaxando nas atenções; nesse caso não há mais esperança para
ele naquela casa. A melhor maneira de impor-lhes respeito é fazê-las pensar.
Quando alguém pensa, "o que é que esse miserável julga que é? O Rei do
Mundo?", o cachorro pode ficar descansado que o seu lugar está garantido.
Em vez de se atirar aos pés da primeira pessoa que lhe esta os dedos, o
cachorro ajuizado deve mostrar uma certa frieza. Só depois que a pessoa
insistir é que ele deve atender, assim mesmo sem pressa. Se não houver
insistência o cachorro nada terá a perder; pelo contrário, convém sempre
desconfiar das que não insistem.
Aplicando todas as suas habilidades na fase difícil dos primeiros
contatos ele conseguiu fazer-se notado e respeitado. Em pouco tempo já estava
dormindo onde bem quisesse, sem receio de que o pisassem ou enxotassem. Esta é
a grande prova de prestígio canino: não ser tocado do lugar que escolheu para
deitar-se.
E gostaram tanto dele na casa que estragaram tudo com a solicitude de
amaciar-lhe a vida. Vendo-o brincar sozinho no jardim alguém lembrou-se de
arranjar-lhe um companheiro menor. Pensaram que assim ele ficaria mais feliz, e
de fato ficou por algum tempo. Passava horas rolando com o menorzinho na grama,
ensinando-o a viver e a ser respeitado, e quem os via embolados no chão
pensava: "Que graça! Até parecem irmãos!" E como aprendia depressa
aquele ladrãozinho malhado!". Em pouco tempo já estava passeando de colo,
aliás uma lição que o maior não ensinou. Aproveitando-se da inocência do
cãozinho as pessoas da casa conquistaram-no completamente, numa inversão
ridícula de papéis. Dava engulhos ver a sofreguidão dele atendendo os chamados
mais absurdos, a humildade na aceitação de censuras e castigos. Aquele estado
de coisas não podia acabar bem. Mais dia menos dia ...
A situação agravou-se quando começaram a tomar liberdades com o cão
maior, decerto inspirado pela intimidade excessiva que mantinham com o outro.
Já não o deixavam dormir onde quisesse, e não escondiam o desgosto de vê-lo
dentro de casa. Ele ia suportando tudo com paciência, esperando que a loucura
passasse.
Mas não há paciência que resista a abusos.
Ele estava dormindo de patas pra cima no canto de uma varanda
ladrilhada, que nem era no meio ou na passagem, mas no canto, ninguém podia
dizer que estivesse obstruindo. Mesmo assim alguém achou de encher a boca de
água e vir de mansinho esguichá-la nele. Ora, isso assusta e aborrece. Num
rápido movimento rolado ele ergueu-se e ficou parado sem compreender, mas a
água escorrendo pelas pernas e a pessoa enxugando a boca e olhando com olhos
maldosos diziam tudo. Foi uma traição mesquinha mas, mesmo assim ele achou
melhor não perder a compostura, não latiu nem fez escândalo. Retirou-se com
relativa dignidade para a sombra do jasmineiro.
A ideia veio de repente, já como decisão. O ladrãozinho malhado tinha
acabado de tomar banho e espojava-se ao sol a poucos metros de distância. O
outro levantou-se da sombra, esticou as patas dianteiras ao comprido do corpo,
como se fosse deitar-se noutra posição, mas era apenas para se espreguiçar;
abriu a boca num bocejo enorme e caminhou para o pequenino. Quando esse, que
estava deitado de costas dando coices para o ar, sentiu aquela pata pesada no
peito, julgou tratar-se de alguma brincadeira e ainda rosnou de brinquedo. A
primeira dentada feriu-o na carne mole do ventre. Achando que a brincadeira muito
bruta ele decidiu retirar-se, rosnando e mordendo o outro no pescoço, mas o
queixinho novo não tinha força para fazer mal, e o outro prosseguiu com seu
projeto, começando pelas partes tenras, com certeza já de cálculo para não sair
perdendo caso se fartasse antes ou tivesse que fugir por motivo de força maior.
Mas ninguém veio acudir, aqueles dois viviam brigando e fazendo as pazes.
Quando ele começou a enjoar só restavam os ossos mais duros e uma mancha de
sangue na grama. Os ossos ele carregou para longe, escondeu, enterrou; o sangue
ficou como enigma para as pessoas da casa.
Se ele pensava que ia ser feliz daí por diante, deve ter omitido em seus
cálculos algum elemento muito importante; porque desde esse dia ele mudou
completamente, a ponto de parecer outro cachorro. É claro que as pessoas da
casa interpretavam a mudança como consequência da perda do companheiro (O que
não deixava de ser) e combinaram ter paciência com ele.
Dava pena vê-lo de cabeça baixa, num ir e vir incessante, sem encontrar
sossego em parte alguma. Mesmo quando parecia descansar, deitado de lado em um
tapete, o bojo das costelas arfando compassado, o brilho do pelo ondulado com a
respiração, podia-se ver que o repouso era aparente.
Olhando bem, via-se que os músculos nunca estavam em completo descanso,
havia neles uma constante trepidação, um zumbir de alta voltagem. Bastava um
ruído distante, um leve toque, mesmo de uma penugem pousando, para ele saltar
nas quatro patas, as orelhar armadas, os olhos furando o tempo - o que
acontecia também sem nenhuma razão aparente. Por uma misteriosa repulsão as
pessoas passaram evitá-lo, não lhe afagavam mais a cabeça, não lhe alisavam o
pelo, ninguém lhe amarrotavam as orelhas para ouvi-lo ganir, o que é também uma
forma de mostrar a um cão que se gosta dele. Agora era só respeito, um respeito
apreensivo. Às vezes ele se instalava numa passagem, parece que desejando que o
maltratassem, que o enxotassem, que o humilhassem; mas o que se via era as
pessoas tomarem trabalho para não incomodá-lo, se afastarem para lhe dar
passagem. Não sabendo chorar ele procurava gastar a angústia caminhando sem
parar, talvez na esperança de se cansar e cair de vez. E quanto mais se
movimentava, mais dava a impressão de estar contido entre barras de uma jaula.
1.Este conto de José J. Veiga,
escritor goiano, tem várias “camadas” de compreensão. Pode ser lido tanto como
uma história entre animais, quanto como uma alegoria das relações humanas. Ele
apresenta uma personagem e também uma história diferente.
Assim, ao longo do conto, observamos
alterações no comportamento e nos sentimentos do cão de acordo com o que ocorre
na convivência com a família. Para isso, o narrador empresta a ele
características próprias dos seres humanos. Retire do texto passagens ou episódios
em que o cão:
a)
Analisa situações e traça estratégias de
comportamento para conseguir seus objetivos e ser respeitado.
b)
Mostra-se ferido em seu orgulho e sente-se
desrespeitado e humilhado.
2. Pesquise em um dicionário o significado da palavra “canibal”,
considerando os usos desse termo. Comente o título do conto, levando em
consideração o sentido conotativo da palavra pesquisada.
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